As Cartas que escrevi
Sinceramente, eu não saberia contá-las. Seriam, provavelmente, mais numerosas do que os dias que já vivi.
Cartas que escrevi principalmente para mim, das quais tantas e tantas se perderam assim como o que continham perdeu-se. E não perde-se sempre?
Talvez exista um dia de acerto de contas, onde voltamos lá na primeira infância e começamos a fazer contas à vida, aos débitos e créditos acumulados enquanto a única preocupação era como recolher as sementes que tivessem o cheiro pior. Não sei como se fazem os cálculos dos saldos, nem o que abona ou acresce ainda mais débitos. Não estarão já liquidados?
Não interessa. Não sei se um dia vamos sequer saber, mas... que diferença faz? É o mesmo quando acreditamos em alguma coisa... se pensarmos bem, a única diferença entre o que se realiza (quando é verdade) e o que cai por terra (quando era uma mentira) é a consequência. Um mero detalhe, uma coisa pequena, que determina todo o resto do caminho, mas só e apenas isso.
Ainda vai existir um caminho, de qualquer forma. Ainda vão existir pequenas expectativas perdidas aqui e ali, ou pequenos sustos de promessas que nunca vão se realizar, e segue-se. Bora lá.
Agora o que mais custa é a presença de você no meu pensamento, de tal forma e de tal maneira, que te consigo ouvir a respiração e sentir o teu olhar. E apesar disso, eu sei e eu sinto, que não tás nem aí. A viver tal qual como estavas, a mesma porta que se havia escancarado, fechou. Assim, sem aviso, sem oscilação. E fiquei eu aqui, a ver os teus olhos a todo instante, quando fecho os meus.
E sei que ainda por um tempo, me vais assombrar. E vou ainda por um tempo, me sobressaltar com qualquer toque no telemóvel ou à porta, e ainda vou ter noites a sonhar e acordar a te sentir comigo. Vai demorar um tempo, mas a ferida vai fechar, uma nova casca há de nascer, uma porta que vai se fechar.
Depois, talvez um dia, eu olhe para trás e pense que eu estive louca. Ou olhe e pense que por um instante, eu estive realmente disposta e tudo, tudo poderia ter sido possível.
O Universo inteiro em um grão de areia de possibilidades, e só o que consigo é deixar meu coração em suspenso, abandonar todas as certezas e confiar que meu coração fez tudo o que pôde, o que sabia, o que conseguiu.
Comentários
Postar um comentário