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E assim, neste silêncio de paz e tranquilidade Vez ou outra, surge esta voz que murmura Sorrateira, repentina e toda dona da verdade Que há, de facto, pesado e imutável silêncio Não um vazio de sons, porque ouço as ambulâncias E os carros, e as pessoas na rua É mais como se fosse um antigo estêncil Mas sem as respectivas cópias, só suas ânsias E a pura e simples verdade - toda nua. Apesar da voz, perdura a serenidade E eu - eu e minhas circunstâncias  E a realidade, toda crua. Não tem mal. Haja lucidez e maturidade.

As Cartas que escrevi

Sinceramente, eu não saberia contá-las. Seriam, provavelmente, mais numerosas do que os dias que já vivi. Cartas que escrevi principalmente para mim, das quais tantas e tantas se perderam assim como o que continham perdeu-se. E não perde-se sempre? Talvez exista um dia de acerto de contas, onde voltamos lá na primeira infância e começamos a fazer contas à vida, aos débitos e créditos acumulados enquanto a única preocupação era como recolher as sementes que tivessem o cheiro pior. Não sei como se fazem os cálculos dos saldos, nem o que abona ou acresce ainda mais débitos. Não estarão já liquidados? Não interessa. Não sei se um dia vamos sequer saber, mas... que diferença faz? É o mesmo quando acreditamos em alguma coisa... se pensarmos bem, a única diferença entre o que se realiza (quando é verdade) e o que cai por terra (quando era uma mentira) é a consequência. Um mero detalhe, uma coisa pequena, que determina todo o resto do caminho, mas só e apenas isso. Ainda vai existir um caminho...

"Porque toda a dor compartilhada pode, talvez assim, pela partilha, tornar-se mais leve" Agape

A Despedida que eu não dei

Esta é a despedida que eu não te escrevo. Que não quero conseguir terminar de escrever. Que não quero dar. Esta não é uma despedida de ti, ou de nós dois. Esta é antes, uma despedida de acreditar. Acreditar aquele pequeno bocadinho que ainda acreditava, ainda queria, ainda sonhava... Que estrago tão grande no meu carácter e na minha essência foi feito, e de que tamanho e de que proporção foi feito, que não há maneira de parar de sangrar? E de parar de querer? E de parar de sonhar? E de acreditar? Porque a cada passo dado é também um centímetro mais fundo enterrada, um suspiro cansado a menos no futuro, um pedaço do corpo arrebatado, um pedaço de mim partido...  E de quantos pedaços eu sou (fui) feita, eu não sei... Mas quantos pedaços ainda hei de ter, sei ainda menos. Terei ainda algum? Esta é a despedida que não te escrevo, que não te quero dar, que não te quero despedir. E no entanto... é esta. E consigo imaginar-te mesmo agora a minha frente, com teus olhos super expressivos a ...