A Despedida que eu não dei

Esta é a despedida que eu não te escrevo. Que não quero conseguir terminar de escrever. Que não quero dar.

Esta não é uma despedida de ti, ou de nós dois. Esta é antes, uma despedida de acreditar. Acreditar aquele pequeno bocadinho que ainda acreditava, ainda queria, ainda sonhava...

Que estrago tão grande no meu carácter e na minha essência foi feito, e de que tamanho e de que proporção foi feito, que não há maneira de parar de sangrar? E de parar de querer? E de parar de sonhar? E de acreditar?

Porque a cada passo dado é também um centímetro mais fundo enterrada, um suspiro cansado a menos no futuro, um pedaço do corpo arrebatado, um pedaço de mim partido... 

E de quantos pedaços eu sou (fui) feita, eu não sei... Mas quantos pedaços ainda hei de ter, sei ainda menos. Terei ainda algum?

Esta é a despedida que não te escrevo, que não te quero dar, que não te quero despedir. E no entanto... é esta.

E consigo imaginar-te mesmo agora a minha frente, com teus olhos super expressivos a me encarar feito duas amêndoas ao mesmo tempo doces e impenetráveis. E me olhas e não percebes o porque, não me vês sequer... como poderias?

E eu não sei mais quem enganou quem, ou se fomos os dois a enganar-me a mim - o que me parece mais certo. Eu e tu, tu e eu contra mim mesma, uma beleza...

E o quanto te sentias antes dividido, de repente desapareceu. E a confiança plena, a esperança certa, o sentimento pulsante... onde foram? Vale a pena lembrar de perguntar ou a própria pergunta existir já responde a todas as outras perguntas?

Eu detesto despedir-me de ti. Não por quem és, porque isso sei cada dia menos. Mas da pessoa que eu pensei que fosses. Limpo e claro com a certeza absoluta da franqueza ao teu favor, sem frescuras e sem rodeios, franco, objetivo, sincero. De um jeito que só consegue ser quem deixou de lado qualquer resquício de covardia. 

Detesto despedir-me de como eu via-te. De como esperava, acreditava, desejava que fosses. Mas não és... és? A tua verdade agora parece ser omissa, não é franca e se contorse conforme a necessidade e a direção do vento a soprar. Tua clareza é conveniente, e as tuas certezas são feitas de sonhos. E quem sou eu para julgar aquele que sonha? Não sou eu a primeira a sonhar?




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As Cartas que escrevi